Saber e não fazer é não saber
Por Inês Cozzo Olivares
Você tem dificuldades quando, em cursos, se depara com um grande número de participantes que chegam desmotivados porque alegam que “já sabem” o tema, que já leram “tudo” o que havia para ler, que já fizeram “n” cursos, seminários e workshops? E que assistiram à mesma palestra no ano passado? Internet, então... Você também se esforça para não rir – pois é falta de educação -, mas pensa: “Se sabem tanto, porque suas áreas não refletem isso?”
Pois é, eu me deparo com essa realidade a cada encontro. E olha que o meu tema é sempre permeado pela neurociência, que é um assunto bastante novo. Imagine, então, quando o tema do trabalho é “Equipe”, “Liderança”, “Motivação”, “Criatividade” (esse ainda vá lá, pois sempre há alguma curiosidade sobre as atividades), “Comunicação”, etc... Aliás, os temas comunicação e equipe são campeões de resistência – dentro daquilo que chamo de “Síndrome do já sei”.
Eu percebia que no primeiro terço do trabalho, às vezes até a primeira metade dele, a coisa parecia mesmo inócua. Sabe como é... Não “pegava”. Como uma música linda que ficou muito “batida” nas rádios ou nas novelas. Tanta pesquisa, meu Deus, e tinha sempre alguém que já tinha lido, visto ou ouvido tudo. E, claro, do “isso eu já sei” para a dispersão era um pulinho.
Um dia resolvi fazer algo diferente. Decidi investir mais na parte que dava Ibope. Percebi que o que fazia sucesso (e, mais tarde, a diferença) eram as atividades.
Então meu objetivo passou a ser, primeiro, descobrir o que acontecia naquela parte do trabalho. Isso era fácil: as atividades; o fazer. Depois, tinha que sistematizar o que estava acontecendo de funcional. Comecei a pesquisar e a colecionar atividades que contivessem todos os conceitos que iríamos trabalhar e que eles, os participantes, “já sabiam”. Redesenhei o C.A.V. (Ciclo de Aprendizagem Vivencial), que já estava também entrando no piloto automático, e, mais tarde, incluí a Matriz S.W.O.T. (ferramenta de planejamento estratégico). Por fim, precisava mantê-lo por todo o trabalho de forma consistente. Foi mais simples do que eu pensava. Comecei pelas experiências, ao invés das teorias. Primeiro a prova, depois as lições. O contrário da escola!
Um exemplo freqüente: o tema é “Desenvolvimento de Times de Alta Performance”, um assunto bem conhecido. A teoria: “Precisamos Estimular a Cooperação na Equipe”. Todos concordam? Concordam.
Eu peço às pessoas que se posicionem de frente umas para as outras, que levantem suas mãos dominantes (simultaneamente), que fechem com força o punho dessa mão e que utilizem o tempo em que deixarei tocando uma música (“O Vira”, Secos e Molhados) para atingir o objetivo, que é “fazer com que seu par abra a mão”.
Chamo de “Jogo do Punho Fechado”. Explico que como esse é um jogo de estratégia, e que vamos verificar quais opções estão escolhendo para solucionar seus problemas, fica estabelecido que eles são livres para utilizar as estratégias que quiserem e acharem mais eficazes, rápidas, funcionais, saudáveis e interessantes, e por aí vai.
Quando eu disparo a música e o cronômetro (serão cerca de 30 segundos), parece que uma manada de elefantes invadiu a sala! Juro. É uma gritaria, uma correria, uma confusão que só vendo.
Terminado o tempo, paro a música e pergunto às pessoas: “Que estratégias vocês utilizaram?”, Nesse momento, descubro duas coisas:
1. Ninguém sabe o que é estratégia, porque me contam os comportamentos que tiveram (força, cócegas, sedução, suborno, etc.), mas sem a consciência sobre a qual estratégia esse conjunto de comportamentos pertence;
2. A grande e esmagadora maioria utilizou a estratégia do perde-perde ou do ganha-perde.
Analisemos: se ninguém me responde competição, cooperação, omissão ou cooptação, deduzo que as pessoas estão repetindo conceitos em frases batidas. Que a grande maioria das pessoas repete slogans impactantes, porém vazios de significado para elas.
Pergunto se todos concordam que a estratégia da cooperação é a mais interessante para todas as partes envolvidas. Respondem-me em uníssono que sim. Eu digo: “Ótimo. Eu também concordo que seja.” E então pergunto: “Se todos acreditam nosso, porque 100% das pessoas não optaram pela que lhe parecia melhor?” Silêncio por alguns segundos bastante significativos, e a conclusão óbvia :”Deixada no piloto-automático, será que estou escolhendo a alternativa ideal, a despeito de toda teoria com a qual concordei?”
Concluindo: o que o mercado assume como sinônimos – informação, conhecimento e sabedoria -, para a Neurociência são etapas da aprendizagem. Informação é apenas um conjunto de dados isolados e ou dados que ainda não compreendo, que ainda não têm significado e ou importância para mim. Conhecimento é a capacidade de associar esses dados das formas mais variadas possíveis, o que só consigo quando os dados fazem sentido. E Sabedoria vem do latim “sapere”, que significa sabor, saboroso. É o saber que o corpo tem. O conhecimento que foi metabolizado e agora é praticado com desenvoltura. Enquanto meu discurso diferir do meu curso, eu afirmarei que “saber e não fazer, ainda é não saber”.